Fevereiro Roxo e Laranja: o que doenças crônicas e graves revelam sobre saúde mental, física e responsabilidade das empresas

Conscientização que vai além da campanha e coloca a saúde do trabalhador no centro da gestão responsável

2/6/20263 min read

O mês de fevereiro traz duas campanhas que, à primeira vista, podem parecer distantes da rotina corporativa, mas que revelam desafios cada vez mais presentes dentro das empresas: o Fevereiro Roxo, voltado à conscientização sobre doenças crônicas como lúpus, fibromialgia e Alzheimer, e o Fevereiro Laranja, que alerta para a leucemia e a importância da doação de medula óssea. Ambas evidenciam uma realidade que o mercado de trabalho já não pode ignorar: o impacto direto das condições de saúde física e mental na capacidade laboral, no engajamento e na sustentabilidade das organizações.

Dados recentes do Ministério do Trabalho e Emprego, do INSS e de instituições de saúde pública indicam um crescimento consistente dos afastamentos relacionados a doenças crônicas, transtornos mentais e condições de saúde agravadas pelo ambiente de trabalho. Essas doenças nem sempre são visíveis, mas afetam profundamente a produtividade, a concentração, o bem-estar emocional e a permanência do colaborador na empresa. Em muitos casos, o adoecimento físico vem acompanhado de sofrimento psicológico, ansiedade e sensação de inadequação, especialmente quando não há acolhimento ou compreensão organizacional.

Do ponto de vista empresarial, essas campanhas reforçam uma mudança necessária de mentalidade. Cuidar da saúde do trabalhador não é apenas um gesto de empatia ou uma ação pontual em datas específicas, mas parte essencial da gestão de riscos, da conformidade legal e da responsabilidade social corporativa. A própria atualização da NR-1, ao incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, reforça que fatores como pressão excessiva, jornadas inadequadas, falta de apoio e ambientes hostis contribuem diretamente para o adoecimento físico e mental.

No contexto do Fevereiro Roxo, doenças crônicas como fibromialgia e lúpus trazem desafios específicos para o ambiente corporativo. São condições que podem gerar dores constantes, fadiga, limitações funcionais e oscilações de desempenho. Quando mal compreendidas, essas situações podem resultar em estigmatização, conflitos internos e até desligamentos evitáveis. Empresas que adotam políticas claras de acolhimento, flexibilidade responsável e diálogo transparente conseguem preservar talentos, reduzir afastamentos prolongados e fortalecer a confiança entre liderança e equipe.

Já o Fevereiro Laranja amplia o debate ao tratar de doenças graves, como a leucemia, que impactam não apenas o colaborador diagnosticado, mas todo o seu entorno emocional e profissional. Instituições como o Instituto Nacional do Câncer e associações médicas destacam que o suporte adequado durante o tratamento — seja por meio de ajustes temporários de jornada, manutenção do vínculo ou apoio psicológico — influencia diretamente a recuperação e a reintegração ao trabalho. A ausência desse suporte, por outro lado, tende a agravar quadros emocionais, elevar índices de absenteísmo e gerar passivos trabalhistas.

Nesse cenário, o papel do RH torna-se estratégico. Cabe à área atuar como ponte entre a legislação, a gestão e as necessidades humanas, orientando líderes sobre limites legais, práticas seguras e formas éticas de conduzir situações sensíveis. Isso inclui desde a adequação de funções e jornadas até a criação de canais de escuta, programas de apoio psicológico e treinamentos que preparem gestores para lidar com adoecimento sem preconceito ou improviso.

Mais do que campanhas internas ou comunicações institucionais, fevereiro convida as empresas a refletirem sobre coerência. Não basta declarar preocupação com a saúde mental e física se, na prática, a cultura organizacional estimula sobrecarga, negligencia sinais de adoecimento e trata afastamentos como falhas individuais. Organizações que realmente se destacam são aquelas que integram o cuidado à sua estratégia, entendendo que pessoas saudáveis constroem negócios mais resilientes, produtivos e sustentáveis.

Ao olhar para o Fevereiro Roxo e Laranja sob essa perspectiva, fica claro que a conscientização não se encerra no mês. Ela deve orientar decisões, políticas e treinamentos ao longo de todo o ano, fortalecendo uma gestão que respeita limites, previne riscos e reconhece que o sucesso empresarial começa pelo cuidado com quem faz a empresa existir.